POR QUE O FUNK É ECONOMIA E PRECISA SER TRATADO COMO TAL

O funk move cachê, equipe técnica, transporte e comércio. Tratar isso como caso de polícia é ignorar uma cadeia produtiva inteira.

Existe um jeito antigo de olhar para o funk em São Paulo: como problema de segurança pública. Baile é tratado como ocorrência, artista como suspeito, público como aglomeração a ser dispersada.

Esse olhar não é só injusto. Ele é economicamente analfabeto.

Olhe quem trabalha num baile

Um evento de funk não é um menino com um microfone. É equipe de som e luz, montagem e desmontagem, segurança, transporte, produção, filmagem, edição, social media. É o bar da esquina que vende mais naquela noite, o motorista de aplicativo que roda até de madrugada, a costureira que fez a roupa do clipe.

É uma cadeia produtiva inteira, com trabalhador especializado, fornecedor e prazo de entrega. A diferença para outras cadeias é que essa quase nunca aparece em plano de governo — e, quando aparece, aparece no capítulo errado.

Informalidade não é escolha, é ausência de política

Boa parte desse trabalho acontece sem contrato, sem nota e sem proteção. E aí vem o raciocínio preguiçoso: "é informal porque quer ser".

Não é. É informal porque o Estado nunca ofereceu a porta de entrada. Ninguém explicou como abrir um MEI para técnico de som, como emitir nota de cachê, como acessar linha de crédito para comprar equipamento. Onde falta política de formalização, sobra precariedade — e depois se culpa quem trabalha.

O que muda quando se trata como economia

Tratar cultura periférica como setor produtivo significa coisas concretas: linha de crédito para quem compra equipamento; formação técnica em som, luz e audiovisual dentro do bairro; edital que não exija estrutura de escritório para ser preenchido; regularização de espaço para evento, em vez de repressão automática.

Significa também parar de exigir que o artista da periferia prove duas vezes o que o artista de outro gênero não precisa provar nenhuma.

O orgulho conta

Tem ainda um efeito que não entra em planilha. Quando o Estado reconhece a cultura de um território, ele diz para o jovem daquele lugar que o que ele faz tem valor.

Eu sei o tamanho disso porque vivi. A diferença entre ser tratado como barulho e ser tratado como profissional muda a decisão de um adolescente sobre o que fazer da vida dele.

Funk é trabalho. Trabalho gera renda. Renda merece política pública. Não é uma tese complicada — é só uma que ainda não foi levada a sério.