O QUE FALTA PARA O JOVEM DA PERIFERIA TER A PRIMEIRA CHANCE

Qualificação, primeiro emprego e os programas que existem no papel mas não chegam no bairro.

Todo mundo concorda que o jovem da periferia precisa de oportunidade. O discurso é unânime — e é exatamente por isso que ele não resolve nada. Concordar é barato. O problema aparece no detalhe: a oportunidade existe no papel e não chega no bairro.

O programa existe. Ele só não chega.

Não é verdade que não haja programa de qualificação e primeiro emprego. Há. O que quase nunca se pergunta é se ele chega em quem precisa.

Um curso que abre inscrição só pela internet exclui quem não tem dado móvel sobrando. Um estágio que exige disponibilidade em horário comercial no centro exclui quem mora a duas horas e três conduções dali. Uma vaga que pede experiência prévia exclui, por definição, quem está pedindo a primeira chance.

Nenhuma dessas barreiras aparece como exclusão. Todas aparecem como "critério".

O custo invisível de tentar

Existe uma conta que raramente entra no desenho das políticas: quanto custa para o jovem apenas tentar.

Custa condução. Custa o dia que ele deixou de trabalhar no bico. Custa a roupa da entrevista. Custa o almoço fora de casa. Para uma família que conta o dinheiro do mês, tentar é uma aposta com risco real — e quem tenta três vezes e não consegue aprende a não tentar mais.

Quando um programa não cobre esse custo, ele filtra por renda sem admitir que filtra por renda.

O que costuma faltar

Faltam três coisas, e nenhuma é cara perto do que se gasta em programa que não funciona.

A primeira é presença no território: formação dentro do bairro, em equipamento que já existe, com horário que cabe na vida de quem trabalha. A segunda é apoio para atravessar o começo — transporte e alimentação garantidos durante o curso, porque é aí que a maioria desiste. A terceira é ponte com quem contrata: curso que termina em certificado e não em entrevista marcada é formação que não virou emprego.

Medir o que importa

Há ainda um vício de avaliação. Programa costuma ser medido por quantas pessoas se inscreveram ou se formaram. Deveria ser medido por quantas estavam empregadas seis meses depois, e com que renda.

São perguntas diferentes, e só a segunda diz se a política funcionou. Enquanto o indicador for matrícula, vamos continuar comemorando número que não muda a vida de ninguém.

Por que isso me importa

Eu comecei a trabalhar com música antes dos quinze anos. Deu certo comigo, mas parte disso dependeu de porta que se abriu por acaso — e acaso não é política pública.

Os meninos que escreviam letra comigo tinham o mesmo talento. O que faltou para eles não foi esforço. Foi estrutura, informação e alguém que chegasse antes. É esse "chegar antes" que precisa virar programa, orçamento e meta.